Sinal verde para uma nova vida

Eram sete da manhã e o sol já estava rachando a cuca naquela sexta-feira, mas nem por isso Lívio deixou de ir trabalhar.
Vestindo seu macacão xadrez todo colorido e seu boné, estava animado para mais um dia de labuta.
Sua filha Laura, de seis anos, dormia ainda, mas ele a despertou com um beijo carinhoso na testa, o que fez ela pular da cama e dizer: “Vamos, papai, estamos atrasados!”.
Pai solo, cuidava de sua pequena e se encantava pela inocência da filha em achar que seu trabalho era o mais legal do mundo. E não deixava de ser.
Digno, como qualquer outro trabalho, ele dançava nos semáforos com a filha na tentativa de sobreviver a mais um dia.
Seus dias eram bastante cansativos, mas a vontade de seguir em frente e ter uma vida melhor era maior.
Alguns dias eram muito produtivos, noutros, nem tanto, mas isso não o desanimava.
Sempre com o sorriso nos lábios, Lívio disfarçava suas frustrações e não esmorecia quando o dia não lhe rendia bons frutos.
Durante os horários de pico, trabalhava nos sinaleiros fazendo o que ele sabia de melhor: dançar ao lado da filha; nos demais horários, lavava e aspirava carros, fazendo um bico aqui e ali.
A pequena já tinha se acostumado àquela rotina e sempre alimentava no pai a esperança de dias melhores. Lívio tinha verdadeiro orgulho dela e tinha certeza de que sua filha era seu maior combustível.
Certo dia, em um determinado sinaleiro, durante uma apresentação com sua pequena, viu um carro de luxo parando no acostamento e achou natural porque aquilo era uma rotina diária.
O que ele não esperava é que o senhor que saía do carro fosse em sua direção.
O homem que saiu do carro, muito bem vestido em seu terno impecavelmente engomado, se dirigiu a Lívio e o perguntou como poderia ajudá-lo a sair das ruas com sua filha.
Em toda sua vida, Lívio sempre foi forte e sempre deixou o sorriso como uma máscara para driblar qualquer tipo de situação, mas o sorriso deu vez ao choro. Ele nunca imaginou que alguém pudesse olhar para eles e ter empatia pela dura realidade que eles viviam no dia a dia.
O homem do terno engomado tirou um cartão de visitas do seu bolso e o entregou a Lívio e pediu que ele o procurasse porque tinha uma proposta irrecusável para ele.
Lívio guardou aquele cartão como se fosse um diamante e olhou para o céu agradecendo ao Universo por ter, enfim, ouvido suas preces.
Sua filha Laura abraçou as pernas daquele homem de terno e disse: “Meu pai é meu super homem!”.
O homem de terno, então, se abaixou e falou para ela: “Ele vai ser mais que um super homem para você. Acredite!”. Disse isso e se despediu.
A filha correu para o colo do pai que estava chorando e pediu para que ele enxugasse as lágrimas.
Ao ver aquele homem de terno partindo, Lívio atendeu ao pedido da filha e entendeu que novas coreografias em sinaleiros não seriam mais necessárias a partir de então.
Autora:
Patricia Lopes dos Santos
2 Comentários
- Brenda
Parabéns, excelente crônica!!
- Patricia Lopes dos Santos
Obrigada, Brenda!