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Lado esquerdo do ônibus

Por Edição Jornal Tribuna·
Lado esquerdo do ônibus

Em um dia normal indo para aula na universidade, como de costume fui ao ponto de ônibus esperá-lo, ao entrar no ônibus me deparei com uma situação inusitada, muito embora seja comum, pois especificadamente a cadeira que fica acima dos pneus do ônibus, mais precisamente da janela estava ocupada e claro, o veículo não é particular.

Por questões de segundo meu cérebro tinha que decidir o que fazer, pois na minha cabeça era um absurdo não estar disponível a última cadeira do lado direito do ônibus que fica acima do pneu. Isso me remete ao sentido de fazer escolhas, e de repente me vi sentada do lado esquerdo do ônibus, na janela, na cadeira que fica acima do pneu. Mas o que isso tem demais? Poderia dizer que nada, se não fosse o fato histórico que me envolve.

O lado direito tem um valor simbólico para mim. Desde o ensino fundamental eu construí algo simbólico mesmo sem noção, de que o lado direito na sala de aula mais especificadamente do lado da parede sempre foi meu lado preferido na sala de aula e isto vem me acompanhando desde então. Meu cérebro então já se acostumou a gostar, mais que isso a ser totalmente informada para direita em tudo, e ser destra contribui, mas essa relação chega a ser mais um pouco enfático do que só isso.

Ao entrar no ônibus, escolher a cadeira do lado esquerdo para sentar me remeteu a uma análise profunda, histórica e cognitiva. Eu me via naquela situação e me questionava o que estava fazendo ali, mas esses questionamentos me levaram também a uma profunda reflexão e durante o percurso me deparei com descobertas incríveis.

Nossa, como me senti totalmente deslocada, o ônibus balançava do lado errado e eu nem conseguia me segurar direito, foi estranho. Me deparei a descobri o que tinha do meu lado esquerdo do cérebro, é como se a minha vida toda – percurso no ônibus – fosse um único registro e este registro era feito apenas do lado direito. E já conformada com aquela situação me permiti entrar em uma profunda viagem analítica de vida e percepções do cotidiano que antes está do lado de direito do ônibus não me permitia.

Como aquele percurso era novo para mim, mesmo o fazendo várias vezes por semana, está do lado esquerdo me permitiu ver pela primeira vez em uma esquina uma varanda ainda em construção com “madeiras roliças”, e ainda havia muitas no chão aguardando sua colocação correta. Eu achei tão lindinha e nunca tinha visto, e isto porque ficava em uma determinada esquina em que ficava o trajeto percorrido pelo ônibus.

Mais adiante uma casa que não poderia passar despercebida por mim dada a sua cor reluzente, um amarelo canário com detalhe azul, e estas cores me saltou aos olhos por tamanha beleza, e não, nunca tinha percebido ela ali. Assim como um portão que parecia fechar ali um castelo, suas formas medieval e amadeirado me remeteu a histórias antigas e estava ali em tão modernidade época. E eis que surge um hidrômetro, eu ri de mim mesma por imaginar “ninguém usa, certeza!”, isso é mais uma representação visual de desenho animado. Não gente, não tenho certeza de nada, isto é minha mente fértil. Mas veja bem quem teria uma ideia de colocar um hidrômetro em uma esquina qualquer do lado esquerdo do meu percurso de ônibus.

E pouco a pouco eu fui gostando dessas novas descobertas e pensando o quão meu lado esquerdo ainda teria o que descobrir e por poucos minutos estava em um universo totalmente novo se analisado por uma ótica do meu lado esquerdo. Foi aí que mergulhei em um momento de autorreflexão, o que é estar do lado esquerdo? Meu lado oposto, é sair da minha comodidade cotidiana, isso me trouxe sofrimento? Não propriamente dito, mas muitos sentimentos de pertencimento e estranhamento também.

Essa viagem também me rendeu alguns passos a mais, errei o ponto de descer e fui parar a mais de um quilômetro distante do meu destino. Poderia dizer que a viagem me fez viajar, mas não foi assim tão boa não, por isso mesmo posso concluir que a experiência vivida do meu lado esquerdo não foi a melhor viagem. Se vou continuar a alimentar o meu lado determinante? Ah se vou, inclusive já estou do lado direito em sala de aula e espero que a cadeira do lado direito que fica acima do pneu na linha 14 esteja disponível.

Autora:

Laize Almeida de Oliveira

1 Comentário

  1. João
    João

    Parabéns, excelente crônica!!

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