Jornal Tribuna

Rua dos Prazeres

Por Edição Jornal Tribuna·
Rua dos Prazeres

— Eu sei que estamos afastadas…
A moça morena andava de um lado para o outro falando ao telefone.
— O filho também é meu, eu quero vê-lo.
Parecia uma discussão dolorosa para ser feita pelo telefone. Ela abraçava o próprio corpo com força, às vezes deixava escapar um soluço causado pelo choro.
— Eu sei, eu entendo que não fui uma boa mãe… Sinto falta dele. Por favor, seja compreensiva.
Ela insistia em ver o filho. Curioso como os pais de hoje em dia são jovens e corajosos, se entregam na cara e na coragem para o amor fraterno. Uma geração cheia de audácia e força para viver.
— Desça aqui e converse um pouco comigo.
Os benefícios de morar no primeiro andar eram poucos, mas, para um bom ouvinte, era uma benção. Outra moça desceu, cabelos longos e encaracolados. Estava de calça moletom e um blusão, como quem — não — diz: “Evitei ao máximo sair de casa. E gostaria de continuar evitando.”
— Eu não sei de onde você tirou que seria uma boa ideia aparecer na minha casa uma hora

dessas.

— Não estou num bom dia. Gostaria de ver o Alê.
— Não podia esperar amanhecer? Pelo amor de Deus — a moradora abriu os braços em

completa insatisfação e intolerância.
— Eu surtei. Desculpa — a visitante abaixou a cabeça, cedeu à confissão. Um abraço sincero e um beijo singelo foi o cenário das jovens amantes.
— Vou buscar o Alê. Mas, por favor, pode me devolvê-lo segunda à noite? A visitante concordou.
A moça dos cabelos encaracolados retornou ao prédio para buscar o tal Alê. A juventude é bonita e intensa, agradável aos espectadores. Todavia, passo o bastão para os destemidos e insistentes.
— Pronto. Espero que você fique bem. Se precisar de algo, pode ligar, tá bem, Talita? Por fim, Talita pegou Alê em seus braços e encarou a moradora por longos segundos.
Aquelas moças se amavam muito, mas o caminho cruel e cheio de espinhos do amor fez com que ambas entregassem seu coração para o mundo. Ah, um detalhe não tão importante: Alê era um felino frajola, todo branco com manchas pretas espalhadas pelo corpo.

Crônica inspirada na Rua dos Prazeres, 144, Taquara, Jacarepaguá, Rio de Janeiro, RJ.

Autora:

Andrezza Rodrigues de Souza, aluna de Letras – Português/Literaturas pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

1 Comentário

  1. Joana
    Joana

    Parabéns pela excelente crônica!!

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