Só na Zona Oeste se Mata e Morre por Amor

Palavras-chave: Rio de Janeiro, Zona-Oeste, Subúrbio.
Ei de repetir: só na zona oeste se mata e morre por amor. Na zona sul estão todos ocupados discutindo o final das palavras. Se ao menos soubessem como começar… O maior ideólogo da zona sul não se iguala a um pequeno frasista da zona oeste. Enquanto isso, a zona norte ainda tem suas flores. Conservam aquela fama de subúrbio espectral. Mas, verdade seja dita, a periferia está na zona oeste?—?eis a hipótese que pretendo defender.
Hão de fazer inúmeras objeções:?—?“mas, e Benfica? E o Méier?” Ora, quem sou eu para questionar os tradicionais estatutos desses bairros? Preciso que fique claro que não quero os desmerecer. Se o faço, é apenas para resguardar a titularidade inabalável da Zona Oeste. É um fato incontornável: a zona oeste abriga os subúrbios mais tristes. Que me perdoem os geógrafos, nenhum número constata o óbvio: apenas a experiência. É preciso ter a verdadeira sensibilidade de um suburbano para entender. Ou seja, para tanto, deve-se viver, melhor seria, chafurdar, na zona oeste.
Eu diria que a ausência de modais valoriza a periferia. Pode-se argumentar que o BRT por excelência pertence à zona oeste e que, por isso, há alguma diversidade. Lhe digo: nada mais falso. Se criássemos uma fórmula que relacionasse periferia e modais, a insalubridade por certo seria proporcional à condição suburbana, compensando qualquer possível pluralidade.
No princípio, era o bonde, veio o ônibus, mas, nada, em absoluto, se compara ao BRT. A profusão de forças naquele lugar impacta qualquer um. Já vi grávida levar um murro no BRT. Não me surpreenderia se me dissessem que tomou um murro por ser grávida. Tudo é possível no automotor. Se cabem 50, entram 100. É um veículo promíscuo, não sei mas como dizer. A massa de seres se espremendo num todo coletivo impossibilitam qualquer senso de decência, qualquer ética própria. Só existe a turba. Um pitbull é mais pessoa que um humano no BRT.
No meu bairro, particularmente, não há fuga: só existe o ônibus. Vans e particulares as vezes quebram um galho. A dificuldade é tanta que é preferível um cavalo. Aqui entra outro ponto: os animais. Característica fundamental do subúrbio são os bezerros, os porcos, os cachorros vadios. O sôfrego piar de um pássaro na varanda redime a vida na zona oeste.
E vejam, isso é natural, o cosmopolita, o moderno, chega primeiro nas áreas centrais e expulsa as velharias na medida em que se aproxima. Hoje, a zona oeste é o subúrbio, a periferia do século XXI. Amanhã, quem sabe o que será possível? Uma vez, vi um sujeito repleto de urbanidade, se embasbacar com o embarque no BRT. Perdoe a obsessão, mas foi um evento. Ali, o tecido da realidade se afinou e entendi minha cidade, não tenha dúvida.
Enfim, a zona oeste é o horizonte possível, o farwest carioca. Não é exagero. O faroeste spaghetti, com todas as suas hipérboles, é um referencial ainda distante. Aqui, o paradoxo do subdesenvolvimento atinge limites sem precedentes. As pessoas andam tão à flor da pele que se Romeu e Julieta viessem para cá, a história não passaria do segundo ato. A vivacidade da paixão apressaria o desfecho. Voam as notícias, Romeu chega ao túmulo e lá está: “aqui jaz para sempre enterna Julieta da Silva Pereira, morta vendendo bala no terminal de Santa Cruz”. Romeu pega um cano e estoura os miólos no Jardim da Saudade.
Autor:
Antônio Ribeiro