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Cisne Negro

Por Edição Jornal Tribuna·
Cisne Negro

Em uma casinha de madeira vivia um garoto. Não era um simples garoto, ele era um cisne negro, mas ele não sabia disso. Estou o observando a um tempo, quero entender porque tanta magnificência se prende em uma casa tão pequenina, onde as rachaduras se fazem presentes e onde as ervas daninhas tentam sufocá-lo. Certa vez, no amanhecer do pôr do sol, o vi levantar. Ele estava sentado à beira da cama de costas. As suas penas negras reluziam sob a luz do sol. O cisne, como um ímpeto, se dirigiu à janela do seu quarto, mas não me viu do outro lado da rua a espreitar. Ele se curvou em uma posição confortável na pequena janela, e os meus olhos estavam estupefatos pelo o que estava em evidência, era o mais belo homem-ave. O seu rosto é delicado como uma navalha, perigosa, porém afiada. Vi naquela feição a mais forte das tristezas. Os seus olhos eram vermelhos como sangue e as suas bochechas possuíam curvas de singularidade extrema, afinal, ele era um cisne.

Eu não parava de o observar, e a cada pequeno gesto daquele homem-ave, minha consciência gritava em desespero para eu o ajudasse. Em segundos de devaneios, percebi que o cisne já não estava mais lá. Imediatamente, a ansiedade tomou conta do meu peito. Eu não sei do que ele é capaz, ele é frágil, e eu preciso que ele confie na minha existência. O pânico tomou conta do meu ser e diversos questionamentos rodeavam a minha mente. Como um ímpeto, sentei-me na calçada ali perto, mas não desviava o olhar da casa daquele enorme belo cisne. Algo estranho aconteceu, eu vi vultos e rachaduras surgindo nas paredes da pequena casa de madeira. Novamente a ansiedade surge: onde ele está? Ele está bem? Maldição, isso tem se tornado uma obsessão. De repente, o vi surgir da porta de entrada da sua casa. Maldita casa, como eu queria destruí-la. Talvez o fogo seja a solução, mas se a casa morrer, o garoto também morre. Ele estava bem vestido, parecia um humano de verdade, mas ele não me engana. Ele estava com uma mochila nas costas, provavelmente estava indo estudar. Esse é um detalhe importante, raramente ele falta às aulas, só quando está muito doente psicologicamente.

Ali perto tinha um grupo de garotos, que ao vê-lo, atiraram naquele homem-pássaro palavras de ódio, palavras que não ouso dizer. A raiva tomou o meu peito e queria matá-los, queria defender o garoto de olhos vermelhos. Mas não consigo, eles não me veem. Eu quero, como as ondas agitadas, que o garoto confie em mim. O cisne, como sempre fez, os ignorou e apenas seguiu o seu trajeto. Anoiteceu e o vi retornar. Ele estava mais agitado que o comum. O que teria acontecido para que o deixasse daquele jeito? Eu não tinha a resposta, porque não consegui segui-lo, pois eu estava preso àquela casa. Da janela, o observava escrever algo, movimentos agitados que fazia com lápis. A cada instante que escrevia, novas rachaduras surgiam em sua casa, rachaduras de sangue. Quando terminou de escrever, vi sua casa desmoronar. Corri para ajudá-lo, mas era tarde.

Tinha madeira para todos os lados. Pela primeira vez, vi ele totalmente transformado. Ele completamente cisne.

Seu copo estava ensanguentado e estirado no chão. Imediatamente comecei a chorar. Ao seu lado, estava o papel em que ele estava escrevendo. O que estava escrito eram frases perigosas: dedico essa despedida à minha solidão, pois é através dela que consigo me expressar. Dedico também as mais diversas crises de ansiedade que eu tive, porque eu estava sozinho e quase morto. Estar sozinho não é a melhor opção, mas é uma escolha. Quando começar a ler essa despedida, caro espreitador,   tenha a concepção que forçadamente fui obrigado a expor a minha vida trágica e sem cor. Quero que saiba também, que quero rosas negras e velas vermelhas sobre o meu caixão de pedra, bem como quero que o silêncio prevaleça. Você foi a minha única companhia, caro observador. Hoje, no dia da minha morte, entendo porque eu sou um cisne negro, porque eu sempre me destaco em lugares sem cor. De repente, comecei a desaparecer, pois a minha existência depende do cisne e da casa, mas ele está morto e a casa destruída.

Autor:

Cleberson Martins

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