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A Invisibilizada Inteligência Feminina?

Por Edição Jornal Tribuna·
A Invisibilizada Inteligência Feminina?

Linda K. Silverman é uma conceituada psicóloga que pesquisa sobre altas habilidades, popularmente conhecidas como superdotação ou pela sigla AH/SD. Em 2012, ela lançou um livro chamado Giftedness 101, no qual ela define algumas categorias que ela denomina como superdotação invisível, enumerando os grupos que são mais difíceis de serem identificados e que, possivelmente, a maioria nunca será. Dentro destes grupos, ela inclui as mulheres, defendendo que além de todas as dificuldades que os demais grupos enfrenta, elas são compelidas, pela sociedade a esconder suas altas habilidades.

É importante saber que não existem estudos que apontem diferenças contundentes entre o número de homens e mulheres AH/SD, mas o número de varões identificados é significativamente superior ao de pessoas pertencentes ao gênero feminino. Pesquisadoras como Silverman explicam este fenômeno pela dificuldade em perceber a  superdotação de mulheres; além disso, elas tendem muito mais a sofrer com a Síndrome do impostor, duvidando de sua própria capacidade e tendendo a esconder suas habilidades.

            Outra explicação é a herança histórica de como a inteligência feminina era percebida e como é retratada até os dias atuais. A possibilidade de sua existência sempre foi negada e, se ser inteligente não está permitido, quem dirá a possibilidade de terem inteligência muito acima da média: impossível! Ou uma anomalia, quiçá?

Peréz e Peréz destacam o apagamento histórico da mulher superdotada, indicando que quando se tinha conhecimento de uma mulher possivelmente inteligente, indicava-se que elas teriam “atributos masculinos”, uma vez que a inteligência só brotava em cérebros varonis. Por esta razão, costumavam serem considerados indivíduos andrógenos e não mulheres, dentro desta perspectiva da mente frágil e vazia típicas do ser feminino.

A história está repleta destes apagamentos. Muitas mulheres, por exemplo, foram queimadas como bruxas pelo simples fato de serem capazes de ler. Dizia-se que mulheres tinham mentes ocas e só um pacto com o demônio lhes permitiria desenvolver tal habilidade. Muitas outras chegaram a serem internadas em institutos psiquiátricos, consideradas como loucas ou qualquer outra sorte que evitasse a percepção social da inteligência feminil.

Forçadas a escreverem às escondidas e parecem tontas, grandes escritoras, como Mary Ann Evans (George Eliot), tiveram que esconder-se atrás de pseudônimos masculinos ao longo de séculos. E mesmo depois que se lhes foi permitida a escrita, elas continuaram sendo obrigadas a esconderem-se atrás de suas iniciais para protegerem-se do rechaço machista das editoras e do público ao identificarem a escrita do “gênero feminino”. E isto é algo que continua acontecendo até hoje.

O impacto de nascer designada mulher, gera prejuízos aplastantes na vida destes indivíduos. A pressão social para encaixar-se e comportar-se “como mulher” é muito maior. Não se lhes toleram comportamentos atípicos, elas sofrem mais bullying e muito mais críticas. Suas ações são analisadas, questionadas, verificadas, cobradas e reavaliadas a todo instante.

É o grupo que constantemente precisa provar sua capacidade e ainda assim é referido como mera sorte. Diante disto, como uma mulher conseguiria se reconhecer como AH/SD, se isto poderia indicar que elas seriam diferentes de seus pares? As estimativas atuais apontam que 75% das mulheres com altas habilidades não acreditam que possam ter inteligência superior, quanto mais acreditarem em sua inteligência que, de fato, é muito superior à media; e quase dois terços delas, escondem suas capacidades.

A principal característica da superdotação é ferozmente reprimida ainda na infância: não se aceitam meninas questionadoras, curiosas, que especulam e exploram; isto é inconsistente com o papel social da mulher e deve ser combatido em suas primeiras aparições. Logo, o instinto indagador vai atrofiando, ao mesmo tempo que o medo lhes é imposto, reduzindo também sua abertura a experiências, essencial para o desenvolvimento de suas altas habilidades. É como se elas fossem borboletas presas em casulos que não lhes cabem, mas que são impedidas de abrir suas asas e sairem dali.

À medida que crescem, estas barreiras só aumentam: elas devem não apenas comportarem-se como o esperado, mas buscar um casamento, ter filhos e cuidá-los, bem como assumir as responsabilidades domésticas. Sua personalidade vai sendo apagada, o brilho vai diminuindo… A percepção de que seu sucesso causaria rejeição e a impossibilidade de constituir uma família, inferi-lhes uma escolha que nunca é imposta aos homens.

Nesta mesma complexidade, Peréz e Peréz apontam que uma característica determinante, na superdotação feminina, é o excesso de autocrítica e a constante e exorbitante preocupação com os demais, tomando para si mesmas a responsabilidade de agradar sempre todos ao redor, de garantir sua felicidade e a harmonia do entorno, colocando-se sempre em último lugar e, muitas vezes, esquecendo-se totalmente de si. Ainda assim, elas continuam sendo AH/SD, o que significa uma forte intensidade emocional predominante. Noutras palavras, elas sentem isto de modo físico, na pele, na carne, nos ossos; sentem as marcas destas cobranças, desta repressão que lhes é imposta.

O abalo na autoestima é latente, gera insegurança e o excessivo sentimento de rejeição. A impossibilidade de poderem ser quem de fato são, somada à constante dúvida de sua própria inteligência, costumeiramente lhes resulta em transtornos do humor, como a depressão, a ansiedade generalizada e a bipolaridade que dificilmente apresentarão melhorias sem a autoaceitação de suas altas habilidades. Mas como aceitá-las se são constantemente rechaçadas? Se não conseguem sentirem-se pertencentes a nenhum lugar?

Quero terminar este artigo te convidando a uma reflexão: de olhos fechados, tente concentrar-se e responder a estas perguntas: quantas histórias de mulheres superdotadas você já viu na tevê e no cinema? Como elas foram representadas? Quantas mulheres são referências para você em produções de qualidade (arte, ciências, política etc.)? Sinta-se à vontade para compartilhar suas impressões nos comentários.

Referências:
S. G. Peréz e B. Peréz A mulher com altas habilidades/superdotação: à procura de uma identidade, 2012.
L. R. Kruczeveski e S. Mariano, Os desafios na educação de mulheres com altas habilidades/superdotação, 2020.
C. Costa, As escritoras que tiveram de usar pseudônimos masculinos – e agora serão lidas com seus nomes verdadeiros, 2018.
A.M.P. Agua y M.L.S. Gutierrez, La Superdotación y el Genero, 2002.
C.M.M. Ogeda, K.M. Pedro e M.C.M. Chacon, Gênero e superdotação: um olhar para a representação feminina, 2017.
M. Perrot, Os Excluídos da História: operários, mulheres, prisioneiros, 1992.
L. K. Silverman, Giftedness 101, 2012.

Autora:

Morgana Marinho é ativista neurofeminista, escritora, advogada, historiadora, e pesquisadora latino-americana. Entre os anos de 2020 e 2021 foi identificada como autista e superdotada, aos 34 anos.

3 Comentários

  1. Keila da silva lima
    Keila da silva lima

    Como o mundo é, mas já foi muito mais cruel com as mulheres, né. Lutemos diariamente para sermos respeitadas.

  2. Juliana Eloi
    Juliana Eloi

    Parabéns, excelente texto Morgana Marinho. Importante discussão.

  3. Ana
    Ana

    Artigo sensasional, excelente ponto de vista, e que as mulheres possam conquistar sempre mais!!

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