A indústria do concurso
Diariamente, os desempregados e mal empregados brasileiros são iludidos por informações sobre concursos públicos. Uns acenam com elevada remuneração válida por toda a vida, outros sugerem contratação humilde e temporária, mas todos cobram extorsivas taxas de inscrição. Esse movimento, de viés puramente arrecadatório, cria a ilusão de que há pleno emprego e rende indevidamente astronômicas somas de dinheiro para grupos que aplicam os concursos ou ministram cursos preparatórios. A prática não chega a ser capitulada como crime, mas deveria receber séria adequação e fiscalização, para evitar que milhares de patrícios invistam seu tempo e parcos recursos numa frustrante aventura de ganho tão (im)provável quanto uma loteria.
São comuns os anúncios de que alguma prefeitura ou órgão público de outra região, distante milhares de quilômetros, abriu concurso para admitir empregados. E que as inscrições podem ser feitas pela internet, com depósito bancário da taxa de inscrição. Massificada, a comunicação atrai candidatos de todo o País, inclusive gente que sequer conseguirá ir até a sede do concurso para realizar as provas. Também exclui candidatos com bom preparo, mas sem o dinheiro para pagar a taxa.
Quem já foi "concurseiro" sabe que, há muito tempo, empresas do governo abrem concursos apenas para criar uma cortina de fumaça sobre os apaniguados políticos que têm em seus quadros, e arrecadar dinheiro para os amigos de seus dirigentes que, por essa condição, acabam ganhando o privilégio de aplicar as provas. Algumas, inescrupulosamente, nem chegam a contratar os aprovados e outras admitem tão poucos que só a soma das taxas cobradas dos candidatos, se carreadas para o cofre da empresa, pagariam anos de salários dos contratados. Um verdadeiro desrespeito!
Já assistimos muita safadeza desse naipe. Está na atuação do Executivo, dos parlamentares, do Ministério Público e da Justiça a possibilidade de salvar o povo desse embuste. Alguém há de criar um mínimo de lógica para os concursos. Não pode a prefeitura de "Xiririca da Serra" oferecer 50 vagas de gari, a pouco mais de um salário-minimo, e fazer propaganda para angariar candidatos no Brasil inteiro. Se o objetivo é só contratar, que divulgue o concurso local ou regionalmente e, por medida moralizadora, não cobre pela inscrição.
Os concursos - que deveriam ser a garantia de honestidade e de oportunidade para o melhor candidato - transformaram-se numa vergonhosa indústria de privilégio e, até de estelionato. O povo necessitado não pode continuar enganado, traído e espoliado. Se a autoridade pública não fizer algo para impedir esse "crime perfeito" contra a economia popular, até a sua seriedade ainda poderá ser questionada...
* Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves (aspomilpm@terra.com.br)
|