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Edição n.º 1521 de 28/08/2010

O ministro e o mensalão

O ministro Joaquim Barbosa, do STF, em licença para tratamento de saúde - problemas na coluna - desde 26 de abril passado, portanto há cerca de quatro meses, foi flagrado pela Veja, num boteco de Brasília, aparentemente de pé, à frente de uma boa dose de bebida, de cor amarela (Uísque ou pinga? Quem sabe é o presidente, que é chegado a essas coisas...). E o Estadão tinha, já, noticiado sua presença numa festa de aniversário.
Curioso é que o ministro, após tomar conhecimento da notícia da Veja, tratou de, pressuroso, retornar ao trabalho, ele que tem sob sua guarda e responsabilidade, mais de 13.000 processos, entre os quais o do famoso "mensalão", implicando grande número de políticos petistas. E já se anuncia, provavelmente dele partindo, que o processo só poderá ser julgado nos fins de 2011. Ou atingido pela prescrição? Assim, muitos fichas sujas poderão candidatar-se e serem eleitos ou reeleitos como se fichas limpas fossem.
Afinal, com os incômodos nos seus costados, o ministro, ao que se diz que ele diz, não pode ficar mais de 20 minutos de pé ou sentado; e os mesmos incômodos não podem, ou não devem, prejudicar o seu desejo, ou vezo, de tomar umas bicadas e outras, de vez em quando, de preferência em lugares públicos, e de comparecer a acontecimentos sociais e até de jogar peladas de futebol aos fins de semana, como se fofoca. Os processos que se danem, particularmente quando a sua solução pode interferir nos interesses do governo que o nomeou. E Lula o teria feito para colocar no Supremo um negro, com um currículo de competência, dando provas, o que é louvável, de seu interesse em acabar ou diminuir o problema racial, que, de lamentar-se, ainda persiste na mentalidade de alguns brasileiros.
Estará o ministro exagerando sua doença para mostrar gratidão ao presidente por sua nomeação? Vale comparar com o que fazia o falecido ministro Carlos Alberto Direito, que, embora de licença médica por cinco meses, procurava dar conta de sua missão, estudando e despachando processos de sua responsabilidade, para não agravar o problema de ter o STF, além dos já existentes, mais de 41.000 novos processos, só neste ano, para julgar.
Colega seu chegou a confidenciar que o ministro poderia recorrer à aposentadoria se o seu problema fosse insanável, o qual perturba até o seu relacionamento com seus colegas, pois já entrou em polêmicas com quase todos eles, inclusive num deprimente bate-boca público com o então presidente da Casa. E um outro colega também chegou a confidenciar que se poderia solicitar uma perícia médica para avaliar se a gravidade da doença justificaria tanta ausência e tanto descumprimento de suas milhares de tarefas, ao prejuízo da Justiça que se espera daquele Tribunal. Que, sem o ministro Barbosa e com a aposentadoria do ministro Eros Grau, vem funcionando com apenas 9 magistrados, a prejuízo de sua missão constitucional.
Será mesmo a doença que lhe impossibilita de debruçar-se sobre os processos, no conforto do lar, ou é que considera fastidiosa a missão de que foi honrosamente incumbido? Ou gratidão, inconcebível, quando se trata dos interesses da sociedade? Tudo isso é extremamente deplorável e de entristecer os que querem este País nas mãos de homens sérios e a ele dedicados, apesar de todas as circunstâncias e dificuldades.

* Batista Pinheiro

  

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