Genuino diz que vai se afastar da vida pública Ex-presidente do PT não vai mais disputar a presidência do partido
O ex-presidente do PT, José Genoino, reafirmou ontem, em depoimento na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Compra de Votos, que não disputará a presidência do partido nas eleições marcadas para este domingo (18) e que se afastará temporariamente da vida pública. Segundo Genoino, a crise política não está sendo fácil para os militantes do PT, mas com ela será possível tirar lições e dar a volta por cima.
Empréstimos - Genoino disse que de fato assinou os empréstimos feitos pelo ex-tesoureiro do partido, Delúbio Soares, em 2003, no valor total de R$ 5,4 milhões.
Genoino informou que é obrigação do presidente do partido assinar todos os documentos relacionados às negociações financeiras, mas que cabia ao tesoureiro definir de onde viriam e quem avalizaria os empréstimos. “Assinei em confiança ao tesoureiro”, afirmou, ressaltando que não tinha nenhum motivo para desconfiar de Delúbio. “Estou aqui sem raiva e com a humildade necessária, mas com a cabeça erguida. Não cometi crimes nem irregularidades”, destacou.
Mensalão - O ex-presidente do PT negou na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Compra de Votos a existência do mensalão e o repasse de R$ 4 milhões ao PTB, segundo denúncia do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), e disse também que o PT não tem conta nem dinheiro no exterior. Sobre o mensalão, Genoino disse que nunca discutiu troca de apoio ao governo. Ele afirmou ainda que, ao tomar posse na presidência do PT, em 2003, explicitou à Executiva do partido que não cuidaria de negociações de cargos, dos assuntos financeiros e da administração interna. Ele declarou que se concentrou em representar o PT na relação com os diretórios regionais, com a sociedade, com o Congresso Nacional, com os partidos políticos e com o governo na discussão da agenda política.
O deputado Fernando Coruja (PPS-SC) questionou se o PT não entrou em um jogo de vale-tudo para garantir a governabilidade do presidente Lula. Genoino respondeu que o PT em nenhum momento fez isso. “Não fizemos vale-tudo na economia, na área externa, na área social nem no Congresso Nacional”, disse. Segundo ele, a negociação política implicava apenas a participação dos partidos nos ministérios e na administração pública.
Empréstimos - O relator da CPMI, deputado Ibrahim Abi-Ackel (PPB-MG), insistiu com Genoino se o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, omitiu do diretório nacional e do presidente os empréstimos que teriam sido feitos com Marcos Valério no valor total de R$ 55 milhões. Genoino disse que nunca chegou ao Diretório nem a ele a informação sobre dívidas ou arrecadações não-contabilizadas.
Tumulto - O deputado Jair Bolsonaro (PFL-RJ) provocou tumulto na reunião, ao levar para dentro da sala da comissão, pela entrada oficial dos parlamentares, o coronel Lício Augusto Ribeiro, que prendeu o ex-presidente do PT, José Genoino, em abril de 1972. O presidente da CPMI, senador Amir Lando, expulsou aos gritos o coronel da sala. Os integrantes da CPMI consideraram que a comissão foi humilhada pela atitude de Bolsonaro e alguns defenderam sua punição. “O comportamento foi uma afronta para constranger o depoente e a comissão”, disse a senadora Ideli Salvatti (PT-SC).
Caixa dois - Genoino afirmou que não houve caixa dois em sua campanha para o governo de São Paulo, em 2002. De acordo com sua prestação de contas, foram gastos cerca de R$ 6 milhões, o que, segundo ele, é um valor fiel ao que foi arrecadado. O deputado Júlio Redecker (PSDB-RS) questionou o fato de a campanha de Marta Suplicy à Prefeitura de São Paulo ter custado R$ 17 milhões. Genoino respondeu que os valores da sua prestação foram mais baixos porque era nitidamente uma campanha perdedora.
Dívidas - Genoino disse que o PT vai honrar as dívidas com os bancos Rural e BMG, no valor total de R$ 5,4 milhões. No entanto, sobre outras dívidas feitas pelo PT que não chegaram ao conhecimento do Diretório e da Executiva Nacional, que hoje somariam R$ 100 milhões, Genoino afirmou que são um problema a ser administrado pelos novos dirigentes, que serão eleitos no próximo domingo (18).
Genoino disse ainda que o então ministro José Dirceu não sabia dos empréstimos ao PT que tinham como avalistas o próprio Genoino, o ex-tesoureiro do partido Delubio Soares e o empresário Marcos Valério.
Irmão - Sobre os US$ 100 mil encontrados em julho na cueca de José Adalberto Vieira da Silva, então assessor do irmão de Genoino, o deputado estadual José Nobre Guimarães, o ex-presidente do PT disse que o desgaste que sofreu foi um preço muito alto pela relação sangüínea com José Nobre. Ele ressaltou que a única “culpa” que tem nessa história é o parentesco, mas defendeu o irmão e disse que não está aprovado que José Nobre tenha alguma relação com aquele dinheiro.
Autoridade - A autoridade de Genoino como presidente do PT foi questionada pela deputada Zulaiê Cobra (PSDB-SP). Ela afirmou que, mesmo com Genoino na presidência, quem mandava no partido era o ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.
Genoino discordou da deputada e disse que a atuação de Dirceu era somente a de um ministro fazendo negociações políticas com o partido de base do governo, o que, segundo ele, é natural, legítimo e democrático.
Ele disse, também, que uma das grandes lições políticas tiradas por seu partido da atual crise foi a necessidade de lutar por uma reforma política. “Acreditávamos que era possível mudar o Brasil sem mudar a política, mas é preciso mudar a política para mudar o Brasil”, constatou. Entre os pontos da reforma política, Genoino falou da importância de estabelecer-se a fidelidade partidária e usar as listas preordenadas nas eleições. Ele afirmou ainda que é preciso construir mecanismos para que o Poder Executivo tenha maioria no Congresso para garantir a governabilidade.
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